Reportagem | Foto: Marcos Roberto Nepomuceno
Evento realizado nesta quinta-feira reuniu alunos, educadores, autoridades e tradicionalistas, homenageou Hil Josino Cunha e Clacir Bonatto e reforçou a importância de transmitir às novas gerações a cultura e os valores do Rio Grande do Sul
A manhã desta quinta-feira, 17 de setembro, foi marcada por tradição, convivência e valorização da cultura gaúcha na EMEB Clóvis Pestana, em Lagoa Vermelha. A comunidade escolar realizou o seu 2º Café Campeiro, atividade integrada à programação da Semana Farroupilha 2026 e que reuniu alunos, professores, funcionários, famílias, autoridades municipais, representantes de entidades tradicionalistas e convidados.
Mais do que servir pratos da culinária regional, o encontro transformou o ambiente escolar em um espaço de memória, aprendizado e confraternização. Revirado de feijão, fritada de ovos, café passado, bolinhos de chuva, rosca de milho, pão batido, cuca caseira, geleias e chimarrão compuseram uma mesa preparada pela comunidade escolar para receber os participantes.
A realização do 2º Café Campeiro já constava na programação oficial dos Festejos Farroupilhas do município para esta quinta-feira, às 8h30. A Semana Farroupilha de Lagoa Vermelha prossegue com atividades culturais, religiosas, campeiras e educativas até o início de outubro.
ESCOLA COMO ESPAÇO DE PRESERVAÇÃO CULTURAL
Na abertura, a direção da EMEB Clóvis Pestana ressaltou que o café ultrapassava a proposta gastronômica. O objetivo foi proporcionar um momento de encontro e, sobretudo, aproximar as crianças de costumes, histórias, músicas, indumentária e manifestações que integram a formação cultural do Rio Grande do Sul.
A mensagem apresentada pela escola destacou que a manutenção das tradições depende também do contato das novas gerações com esse patrimônio cultural.
“É um momento para reunir pessoas, conversar, compartilhar, cultivar amizades e valorizar aquilo que faz parte da nossa história”, destacou a organização ao abrir a atividade.
Participaram, entre outros convidados, o prefeito Eloir Morona, o vice-prefeito Alessandro Muliterno, o secretário municipal de Educação, Cultura e Desporto, Carlos Henrique Bombassaro Junior, integrantes da Administração Municipal, representantes do Legislativo e das entidades tradicionalistas, além de professores, servidores, alunos e familiares.
O secretário Carlos Henrique Bombassaro Junior responde atualmente pela Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto.
HOMENAGEM A CLACIR BONATTO
Um dos momentos especiais da manhã foi a homenagem a Clacir Francisco Bonatto, escolhido pelo CTG Alexandre Pato como seu homenageado na Semana Farroupilha de 2026.
Bonatto tem atuação junto à entidade e integra a atual patronagem do CTG, onde exerce a função de 2º Sota Capataz. Sua escolha como homenageado havia sido definida pela patronagem em reconhecimento à colaboração prestada ao CTG Alexandre Pato.
Ao agradecer a distinção recebida na escola, Bonatto voltou sua manifestação especialmente ao trabalho desenvolvido pelas instituições de ensino.
Ele lembrou sua experiência no tradicionalismo e destacou que muitas crianças que participaram de entidades em outras épocas hoje são pais ou mesmo avós que continuam transmitindo esses valores dentro de suas famílias.
Para Bonatto, é justamente nesse processo que a escola desempenha uma função decisiva: plantar a primeira semente.
Segundo ele, quando a criança encontra terreno fértil dentro da família, das escolas e das entidades, cresce compreendendo a importância de preservar os usos e costumes gaúchos.
Bonatto também ressaltou o voluntariado como uma das bases do movimento tradicionalista. Disse que sua participação nas entidades nunca teve como finalidade receber homenagens, mas colaborar para que as atividades acontecessem.
“A pessoa vem para este mundo não só para viver, mas para auxiliar, para buscar fazer e dar o melhor de si onde estiver”, afirmou.
FÁBRICA DE GAITEIROS LEVA MÚSICA À ESCOLA
A programação contou também com a participação da Fábrica de Gaiteiros. Um grupo de alunos do projeto realizou apresentações musicais durante a manhã, aproximando ainda mais o ambiente escolar da música regional.
A intervenção ganhou significado especial dentro da proposta do Café Campeiro: enquanto a gastronomia resgatava sabores tradicionais, a música apresentava aos estudantes outra dimensão da cultura gaúcha.
A participação dos jovens gaiteiros também foi lembrada posteriormente nos pronunciamentos como exemplo de iniciativas capazes de assegurar continuidade às manifestações culturais ao longo das gerações.
HIL CUNHA: TRADIÇÃO RECEBIDA DA FAMÍLIA
Outro homenageado foi Hil Josino Cunha, escolhido como homenageado municipal da Semana Farroupilha 2026.
Ligado desde a infância às atividades campeiras e ao tradicionalismo, Hil construiu trajetória junto ao CTG Alexandre Pato, ao Grupo Folclórico Bombacha Preta e ao Piquete 35, além de participar de cavalgadas e de diferentes iniciativas tradicionalistas.
Durante sua manifestação na escola, Hil relacionou sua trajetória às próprias raízes familiares.
“Simplesmente, a gente trabalha com o que gosta”, resumiu.
Ele recordou que cresceu em uma família ligada ao campo e ao tradicionalismo e defendeu a participação das escolas e das famílias na preservação desses costumes.
Hil também destacou a importância de iniciativas como a Fábrica de Gaiteiros e lembrou que, em outras épocas, a presença do gaiteiro fazia parte das festas e encontros nas comunidades do interior.
Na avaliação do homenageado, cultura e tradicionalismo também podem contribuir na formação humana e social das novas gerações.
OLHAR JÁ ESTÁ VOLTADO PARA 2028
Hil Cunha aproveitou a manifestação para chamar atenção para um compromisso futuro de grande dimensão para Lagoa Vermelha: em 2028 o município será sede da geração da Chama Crioula, conforme calendário do Movimento Tradicionalista Gaúcho.
A definição consta na programação oficial do MTG para a geração e distribuição da Chama Crioula e colocará Lagoa Vermelha, sede da 8ª Região Tradicionalista, no centro das atenções do movimento naquele ano.
Hil destacou que o município já possui diferentes forças envolvidas nesse processo, citando as entidades tradicionalistas, escolas, projetos culturais e a própria mobilização da comunidade.
“Lagoa vai ser notícia para distribuir para o Rio Grande do Sul inteiro a centelha da chama”, projetou.
MULITERNO DEFENDE TRANSMISSÃO DA HISTÓRIA
O vice-prefeito Alessandro Muliterno fez uma manifestação centrada na necessidade de compreender a história que sustenta os símbolos atualmente utilizados durante os Festejos Farroupilhas.
Muliterno percorreu diferentes referências históricas ligadas ao Rio Grande do Sul para defender que o tradicionalismo não deveria permanecer restrito à repetição de símbolos ou ao uso da indumentária.
Para ele, compreender por que determinadas manifestações foram preservadas é fundamental para evitar que acontecimentos, personagens e episódios históricos desapareçam da memória das próximas gerações.
O vice-prefeito também valorizou o trabalho desenvolvido pela EMEB Clóvis Pestana e pelas entidades tradicionalistas, especialmente por inserirem crianças e jovens nesse processo.
Em sua manifestação, resumiu o desafio como uma tarefa permanente: preservar a tradição sem permitir que a história deixe de ser conhecida pelas novas gerações.
ELOIR MORONA DESTACA A EDUCAÇÃO PELO EXEMPLO
Encerrando os pronunciamentos, o prefeito Eloir Morona concentrou sua fala no papel educativo do encontro.
Ao observar a organização da escola e o envolvimento de professores e funcionários, Morona afirmou que o Café Campeiro demonstrava a capacidade da comunidade escolar de trabalhar coletivamente.
Para o prefeito, a continuidade do evento poderá fazer com que ele próprio passe a integrar a tradição da escola.
“Se nós estamos no segundo Café Campeiro, daqui a pouco estaremos no terceiro, no quarto, no vigésimo, e isso vai se tornar tradicional”, afirmou.
Morona destacou principalmente o conceito de “educar pelo exemplo”. Para ele, ensinar não ocorre apenas dentro da sala de aula, mas também quando adultos participam voluntariamente das entidades, preservam costumes, pilcham uma criança ou criam oportunidades de convivência.
O prefeito também utilizou uma imagem cotidiana para sintetizar sua mensagem: a roda de chimarrão.
Segundo Morona, quando as pessoas deixam temporariamente celular, televisão e computador para sentar, conversar e compartilhar um chimarrão, estão igualmente transmitindo valores e proporcionando convivência.
TRADIÇÃO OLHANDO PARA O FUTURO
Ao encerrar o protocolo, a direção da EMEB Clóvis Pestana deixou uma mensagem que sintetizou o espírito da manhã: tradição não representa apenas olhar para aquilo que ficou no passado.
Ela ganha continuidade quando crianças e jovens conhecem, compreendem e passam adiante aquilo que receberam.
O 2º Café Campeiro reuniu exatamente essas dimensões. Ao redor da mesa, estavam a comida, a música, o chimarrão e a indumentária. Ao redor deles, porém, estava o elemento que sustentou toda a proposta do encontro: a transmissão entre gerações.
Em uma Semana Farroupilha marcada por homenagens e por diferentes atividades espalhadas pelo município, a EMEB Clóvis Pestana mostrou que preservar uma tradição também pode começar dentro de uma escola — em uma manhã de aula diferente, compartilhada entre crianças, famílias, educadores e pessoas que dedicaram parte de suas vidas ao tradicionalismo.





