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Rolezinhos: Fenômenos Social, Político e Jurídico – Edição de Fevereiro de 2014

Por que o fenômeno do rolezinho tornou-se o assunto mais falado no Brasil? Não tenho dúvidas de que é por sua capacidade de aflorar, acirrar e dividir opiniões sobre a questão de classes brasileiras somada à questão racial. Nos últimos dias, temos assistido a uma parcela da população brasileira apoiando esses jovens da periferia em seu exercício do direito de ir e vir. Mas também temos visto o oposto: uma vasta massa de pessoas de todas as camadas sociais destilar todo o seu preconceito de forma passional, nua e crua.

Foram os americanos que aperfeiçoaram a ideia de cidades fechadas e controladas, à prova de poluição, pedintes, automóveis, variações climáticas e todos os outros inconvenientes da rua. Cidades só de calçadas, onde nunca chove, neva ou venta, dedicadas exclusivamente às compras e ao lazer – enfim, pequenos (ou enormes) templos de consumo e conforto. Os shoppings são civilizações à parte, cuja existência e o sucesso dependem, acima de tudo, de não serem invadidas pelos males da rua. Dentro deles você pode lamentar a padronização de lojas e grifes, que são as mesmas em todos, e a sensação de estar num ambiente artificial longe do mundo real, mas não pode deixar de reconhecer que, se a americanização do planeta teve seu lado bom, foi a criação desses bazares modernos, estes centros de conveniências com que o Primeiro Mundo – ou pelo menos uma ilusão de Primeiro Mundo – se espraia pelo mundo todo.

Os shoppings não são exclusivos, qualquer um pode entrar neles mesmo que seja só para fugir do calor, ou passear entre as suas vitrines, mas a apreensão causada por essas manifestações de massa nas suas calçadas protegidas, os rolezinhos, soa como privilégio ameaçado.

De um jeito ou de outro, a invasão planejada de shoppings tem algo de dessacralização. É a rua se infiltrando no falso Primeiro Mundo. A perigosa rua, que vai acabar estragando a ilusão.

Cogita-se então, agora, em proibir nos shoppings a presença dos grupos cuja aparência sinalize baixo poder aquisitivo. A avaliação é preconceituosa e baseada em pura subjetividade. E daí, se não puderem adquirir produtos, estão impedidos também de frequentar o local? Consagra-se o apartheid social?

Como se classifica um rolé? Pela quantidade de pessoas? Pela cor da pele? Pelas roupas?

Ninguém pode impedir que jovens da periferia frequentem os mesmos locais habitualmente frequentados por consumidores melhor situados na escala social.

As incursões organizadas de jovens de periferia aos shoppings das grandes capitais estão provocando um candente debate nacional sobre temas controversos como limites do direito de manifestação, discriminação social e racial, luta de classes e repressão policial.

Os chamados rolezinhos são, antes de tudo, um fenômeno novo gerado pelo poder de mobilização das redes sociais, que guardam algumas semelhanças com os protestos de rua que surpreenderam o país em junho do ano passado. Da mesma forma, envolvem muitas pessoas pacíficas e bem-intencionadas, mas também oportunistas que se escondem na multidão para transgredir.

E é justamente pela sua ambiguidade que o movimento precisa ser tratado com cautela e racionalidade. O país precisa encontrar um caminho de convivência em que todos os direitos sejam respeitados – tanto o de ir e vir, ameaçado pelos defensores da repressão aos jovens, quanto o de desfrutar da ordem pública, garantido a todos os cidadãos.

Os grandes centros de consumo foram idealizados justamente para oferecer conforto e segurança aos frequentadores, independentemente da sua condição social, da cor da pele ou do poder aquisitivo. São espaços privados de uso público, que não podem servir de palco para a segregação nem para a intimidação de ninguém. Ambas as ações são incompatíveis com os direitos humanos e com as garantias individuais asseguradas pela Constituição Brasileira.

Ninguém pode impedir que jovens e adolescentes oriundos da periferia frequentem os mesmos locais habitualmente frequentados por consumidores melhor situados na escala social. Porém, em nome dessa almejada igualdade, não se pode aceitar que grupos de indivíduos promovam desordens, correrias e agressões que possam constranger ou colocar em risco a própria integridade e a de outras pessoas. O temor de arrastões também é compreensível, pois os brasileiros já viram repetidas vezes este filme. Mas nada justifica o preconceito, o cerceamento antecipado e muito menos a repressão violenta e indiscriminada, seja por parte de agentes privados, seja por policiais chamados a intervir.

Condenável mesmo é a politização desse episódio de desfecho imprevisível. Em vez de tentar tirar proveito do fenômeno como alguns já estão fazendo, integrantes do governo e da oposição deveriam dar exemplo de convivência civilizada, debatendo o tema com transparência e buscando soluções negociadas para eventuais impasses.

O Brasil só será um país justo quando o diálogo vencer o medo, o ódio e o preconceito.

Esses jovens vão aos shoppings como uma alternativa de lazer, vão para passear e também para consumir, buscam se afirmar através de roupas de grife e participação em espaços públicos.
O diálogo é sempre produtivo e indutor de soluções.

O rolezinho pode também extrapolar as normas de segurança estabelecidas para um ambiente fechado, tendo em vista que nem todos que frequentam o movimento possuem boas intenções e ocasionam tumultos. Entretanto, no intuito de manter a ordem nesses locais, os administradores acabaram passando por segregadores e a questão ganhou face sociopolítica, o que é um grande equívoco.

Pois então por que os rolezinhos causam tanto estranhamento?

Os jovens das periferias invadem shoppings para zoar. Circulam pelos corredores, se beijam, cantam, revoam. Inquietam, assustam, constrangem e também, claro, entusiasmam quem enxerga o início de um fenômeno social com potencial transformador.

Como entender a gurizada do rolezinho, quando ela deixa de ser apenas um mercado que consome marcas, serviços e políticos e passa a emitir, fora do Facebook, ao vivo, mensagens mais complexas? Em que língua esse pessoal está falando?

É sabido que as turmas das periferias que fazem zoeira em shoppings não são homogêneas e estiveram fora dos protestos de junho. Alguns reproduzem comportamentos consumistas, há os que combatem esse consumismo, outro grupo politiza as manifestações (são pobres e negros afrontando as “elites” brancas). E há quem queira apenas zoar, namorar, beijar.

Muitos estão tentando decifrar o fenômeno. Principalmente os que fazem sempre os mesmos trajetos, que não conhecem o outro lado da cidade, que nunca vão às periferias, e protegem-se nas convicções de suas ignorâncias.

A reação conservadora é forte e provoca o contraponto dos que vislumbram no rolezinho as primeiras lavas de um vulcão. Os observadores dizem coisas meio óbvias como: os adolescentes não querem só comida, querem compartilhar melhor os espaços públicos, mais pracinhas, escolas e ônibus limpos e bonitos, creches para os irmãos, ciclovias, calçadas e postos de saúde brancos como os das propagandas.

Enfim, os jovens da periferia devem estar se divertindo com a confusão que causam, não só nos shoppings, mas em nossas cabeças.

O rolezinho é bom para pensar no Brasil porque as reações aos encontros de jovens ajudam a entender questões estruturais do país.

Não é exagero dizer que o rolezinho é tão bom para pensar no Brasil quanto os protestos de junho de 2013. Muitos jovens que ora estavam reclamando da ação policial, agora estão pedindo para que a polícia “dê porrada”. A sociedade está mais dividida hoje do que naquela ocasião. E essa polícia tende a agir para um lado dessa divisão, para manter uma ordem particular e relativa.

Hoje, após a repercussão, os rolezinhos são um movimento difuso e amplo, de diversão e de política. Porém, todos eles mantêm o shopping como um lugar central. Independente da intenção, o rolezinho só faz sentido no templo do consumo, no coração da sociedade capitalista. Nada disso é novo: os grupos populares brasileiros, desde a abolição da escravatura, sempre ocuparam espaços da cidade como forma de diversão investida de política.

Em nossa história, criou-se a imagem de um Brasil moderno e desenvolvido, e de um outro, arcaico e subdesenvolvido. É possível ainda acrescentar: um, branco e de elite, outro, negro nas periferias. Esses “dois Brasis” não se tocam, mas, quando isso acontece, o primeiro lado usa de suas armas mais poderosas: a força policial que varre a tudo e a todos.

Hoje temos a chance de discutir de forma mais aberta, rápida, cuspindo todo o processo de discriminação engasgado. Os jovens da periferia, se estavam interessados apenas em dar um rolê, agora estão se dando conta de sua força. E não têm se contentado em ser parte daquele Brasil arcaico, que se esconde longe dos olhos da população em sua cega zona de conforto. Esses jovens querem ser vistos com sua capa de super-herói. Eles não querem ser reconhecidos por meio da exotização e da romantização da cultura popular, mas por uma apropriação singular dos símbolos mais altos do poder (as marcas) e dos espaços (os shoppings). O rolezinho é um alívio temporário capaz de transmutar exclusão em inclusão – inclusão ainda longe de ser de fato e de direito. Termos a consciência desse debate – ou fazer emergir o discurso social camuflado – é certamente o primeiro passo.

Em tempo: Após o fechamento deste editorial cumpre informar que,  no domingo, dia 16 de fevereiro de 2014, aconteceu em São Paulo, Capital, o primeiro Rolézinho regulamentado pela Prefeitura Municipal, ou seja, com comunicado e autorização prévias.

anraymundi


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