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Deu a lógica – Edição de Janeiro de 2018

A propósito da impressionante capacidade de proliferação das investigações e processos relativos à gigantesca máquina de corrupção desvendada pela Operação Lava Jato, o saudoso Teori Zavascki disse: ”Puxa-se uma pena, vem uma galinha”. (Para ele, desgraçadamente, veio animal muito mais perigoso que o inofensivo galináceo).
E, para todos nós, brasileiros, inesperada e felizmente, veio a auspiciosa perspectiva de fim dos privilégios penais tradicionalmente assegurados aos poderosos.
Um a um, ou aos magotes, caíram nas malhas da repressão criminal alguns dos mais salientes mandarins da política nacional e do poder econômico dominante. Figuras proeminentes da crônica política e empresarial do País, que nos habituáramos a ver empavonadas e poderosas, passando a impressão de absoluta intangibilidade, com ´status quase divino’, deslizaram desse patamar para a vexatória condição de criminosos dos mais execrados. A população, incrédula a princípio diante do inusitado, já se vai habituando aos novos tempos.
Talvez a rotinização dessa realidade de início surpreendente seja a melhor das notícias nesse novo universo da informação.
O povo já não se espanta como antes ante a imagem de parlamentares e governadores e potentados presos, por vezes até injustificadamente humilhados quando submetidos a tratamento policial historicamente reservado aos humildes. Não se trata de gozar com a desgraça alheia nem de louvar possíveis excessos, mas de comemorar um novo perfil da democracia.
A condenação de um ex-presidente, agora em segundo grau de jurisdição, não é evento para ser festejado, mas certamente não é também para lamentar. Independentemente da exatidão técnica da decisão – atestada, aliás, pelo extraordinário nível dos votos proferidos – deve ser festejada, sim, a confirmação da efetividade da justiça penal sem que sobre ela influa a importância política, social ou econômica das pessoas envolvidas.
Condenar uma figura com as credenciais de supremo mandatário da Nação por dois períodos e de postulante aparentemente favorito a um terceiro, não requer apenas coragem e independência, mas uma cultura de igualdade e compreensão clara do que se possa mesmo chamar democracia.
Ainda mais se desenha um tempo novo quando o ambiente sócio-político está, como agora, pejado de radicalismos e intolerâncias extremos, intimidações despudoradas e minazes demonstrações de força. A imposição de sanções criminais a um homem com a história, as aspirações e o inegável prestígio popular de Luiz Inácio aponta a certeza de que alguns dos velhos e mais resistentes vícios da República estão cedendo a uma visão renovada da realidade política e social.
Não se trata apenas do ineditismo do fato, mas da alentadora constatação da presença nessa realidade de um dado novo: o velho chavão “Você não sabe com quem está falando” começa a ser descreditado.
A fábula do moleiro que enfrentou um rei com outra frase famosa – “ainda há juízes em Berlim” – repete-se na vida real.Por Adroaldo Furtado Fabrício, www.espacovital.com.br


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